Marcelo é mau por defender uma ideia. Cavaco, por ser contra essa mesma ideia!
"Para ganhar, Marcelo renunciou a Passos e Portas, praticou amnésia sobre o anterior Governo, reconheceu e apresentou cumprimentos à tal "geringonça" e prometeu promulgar políticas que pessoalmente rejeita, como a adoção entre casais do mesmo sexo e o restabelecimento do aborto livre e gratuito. Por muito que isso desespere o revanchismo da minoria de Direita, todos sabem que, sem esta trégua com o Governo de António Costa, o presidente eleito não chegaria a sê-lo."
Este trecho, para os mais atentos, é uma citação daquilo que Mariana Mortágua escreveu num artigo publicado no JN. Ou seja, critica o facto de Marcelo Rebelo de Sousa, mesmo tendo convicções contrárias, considere que esta é uma medida vanguardista e que faz sentido nos dias de hoje. Ao mesmo tempo que tenta deixar implícito que quem votou em Marcelo o fez por ele afirmar que pretendia promulgar as tais leis.
Será que Mariana Mortágua acha mesmo que o povo que votou em Marcelo Rebelo de Sousa é assim tão parvo?
Em Democracia, quem é eleito, seja no Governo ou na Presidência da República, ganha legitimidade popular para tomar decisões dentro daquilo que a Constituição permite.
Não deveria ficar contente por o Presidente (eleito democraticamente pela maioria dos portugueses, logo à primeira volta, derrotando a estratégia aplicada pela esquerda, de forçar a segunda volta) aceitar medidas que o próprio Bloco de Esquerda defende?
Ao ler este texto de Mariana Mortágua fico com uma dúvida: será que para o BE, as medidas só são boas se forem candidatos de esquerda a defendê-las? É uma dúvida genuína porque, logo mais à frente, no mesmo texto, Mariana Mortágua refere a felicidade sentida pela saída de Cavaco Silva da presidência da seguinte forma: "Ao vetar os diplomas da adoção por casais do mesmo sexo e da reposição do aborto sem humilhações, Cavaco Silva só não apodreceu ainda mais a sua imagem porque já não havia muito por onde piorar".
Fico baralhado, então agora, não é de louvar a decisão de Cavaco, ao ser fiel às suas convicções e aos eleitores que o elegeram? Ou andei distraído e Cavaco Silva perdeu as eleições e aplicou um Golpe de Estado para assumir o poder?
Nestas coisas da política, muitas vezes, vivemos dos encontros e desencontros de posições dos seus atores. Nós, que temos de escolher (e ainda bem que o podemos fazer de forma democrática) entre os maus e os menos maus, somos bombardeados com o seu e o seu contrário vezes sem conta. É quase assim, e já aceitamos sem grande surpresa. Mas esta contradição é por demais evidente e irrisória.
Este tipo de atitudes, conversas políticas de embuste, que existem da esquerda mais extrema à direita, são as responsáveis pelo elevado nível de abstenção. Mas, se nenhum deles muda de atitude, talvez seja porque essa abstenção é favorável à forma como se faz política em Portugal. Até ao dia em que o voto em branco permita eleger lugares vazios na Assembleia da República.
Desde que se conhecem os resultados das últimas eleições presidenciais que se tem ouvido falar, por entre dentes, porque é difícil digerir a derrota, da injustiça da eleição de Marcelo Rebelo de Sousa, que foi esperto pela campanha que fez, que é uma estratégia que está a ser "montada" há uma série de anos... Fico pasmado!
Quer se goste, ou não, quer seja o candidato no qual se acredita, ou não, foi Marcelo o eleito. Até Jerónimo de Sousa tratou de atribuir o resultado do Bloco de Esquerda ao facto da candidata ser uma "engraçadinha". Sim, já retirou as declarações, mas o que está dito, está dito!
Como não se sabe onde atacar, ataca-se a estratégia vencedora em vez de se tentar perceber o que correu mal com a estratégia derrotada. Faz lembrar as análises desportivas aos jogos de futebol, a equipa pode perder por 6-0 mas é um resultado injusto, porque jogaram melhor do que o adversário, e porque defenderam muito!
Democracia é isto. A maioria das pessoas que votou, quase 2.5 milhões de portugueses (2.410.170), escolheu Marcelo Rebolo de Sousa para Presidente da República. Mas aquilo que se pretende fazer passar é que os 469.310 que votaram em Marisa Matias estão mais certos e, portanto, ela é que deveria estar na função.
Sim, há países onde é assim que a "democracia" funciona, mas essa não é a democracia pela qual os nossos antepassados lutaram. Por isso, há que aceitar a escolha popular. Sim, nos próximos cinco anos vai fazer coisas que irritam pessoas, mesmo quem votou nele, mas isto faz parte da vida e cá estaremos para fazer os tais julgamentos "populares" sobre as competências, ou incompetências de Marcelo rebelo de Sousa.
Nota Final: Falar dos resultados obtidos por Marisa Matias, é a estratégia que o Bloco de Esquerda vai continuar a usar até à exaustão tentando manter a ideia (e realidade) de crescimento do partido. E isto vai suceder até ás próximas eleições (europeias ou legislalitas) para conseguir conquistar um lugar ainda maior à esquerda. E faz muito bem. É a sua estratégia e deve usá-la como entender, tal como fez Marcelo Rebelo de Sousa.
