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Coisas da Vida

A "doce" realidade dos hospitais públicos

A "doce" realidade dos hospitais públicos

Esta conversa começou por ser uma revelação daquilo que todos sabemos que acontece no Sistema Nacional de Saúde (SNS) e fazemos de conta que não existe. Ao melhor estilo da avestruz, que esconde a cabeça na areia. Mas tem de ser alargado perante a notícia que voltou a vir a público (a propósito da carta aberta escrita por uma aluna que não entrou no curso de medicina, a Marcelo Rebelo de Sousa) que dá conta da exigência dos alunos de medicina em relação ao suposto "excesso" de médicos em Portugal.

 

 

Tal como disse, a revelação: Enquanto esperava para ser atendido numa consulta, programada, num dos hospitais de Lisboa, já ia em duas horas de espera para lá da hora agendada, sala cheia, uma frase que ainda oiço na minha cabeça: "Para este exame só temos vagas para outubro de 2017". Levantei os olhos, à espera que o senhor do atendimento dissesse que estava a brincar. Não disse e reafirmou, "lá para 29 de outubro".

 

A utente, ou melhor, a filha da utente, uma senhora com mais de 70 anos, replica: "Mas a consulta está marcada para junho (de 2017). Esse exame é para mostrar na consulta". Pois é, responde conformado o funcionário do hospital, "a solução é fazer fora, no privado. Estão aqui dois nomes de locais onde pode fazer o exame". E, diz ainda o funcionário: "Eles que continuem a cortar nas despesas, a fechar hospitais..."

 

Mais uma afirmação de quem está no terreno e lida diariamente com a falta de recursos.

 

Quanto ao exame, creio que é crucial explicar que se trata de um ecocardiograma doppler, um exame ao coração. Uma condição cardíaca é grave em qualquer idade, mas naquele caso ainda me deixou mais perplexo. Esta espera não é mais do que colocar as pessoas numa lista com destino incerto.

 

Claro, poderão alguns dizer, se a senhora entrar de urgência no hospital, provavelmente, o exame acontece na altura. Mas não será tarde demais, quando isso sucede? Devo relaçar que a senhora em questão mora fora de Lisboa, Ribatejo, e teve de vir a uma consulta à capital.

 

Vamos ao cenário em que a senhora decide fazer o exame no privado, que será o mais provável. É detetado algum problema, tem de esperar pela consulta que está agendada para junho. Ou então tentar furar a lista, ou, como acaba por acontecer a quem consegue cobrir a despesa, vai a um consultório privado.

 

Depois, no pior dos cenários, se for necessária alguma intervenção, para onde vai o utente? Para o hospital público ou para o privado? Neste último, só se tiver seguro, e é preciso que a companhia cubra as despesas na íntegra. No público, lá está, urgências e a mais que certa lista de espera, dependendo da gravidade.

 

Haverá casos e casos, mas é ridículo sequer ter de debater este tema.

Talvez, digo eu que não sou médico nem legislador, deva abrir um curso específico para médicos que queiram prestar serviço nos Hospitais Públicos.

Agora, a questão da exigência dos alunos de medicina, datada de março deste ano. "Há médicos a mais". E eu pergunto, onde? Se quando vamos aos hospitais temos de esperar meses, anos, por uma consulta ou um exame. Tempo que reduz substancialmente, para o mesmo dia, se for preciso, se o utente tem capacidade financeira para pagar do seu bolso o preço da consulta, com o mesmo médico, no consultório particular. Se consegue fazer o exame em menos de uma semana (para não parecer exagerado) numa clínica privada.

 

E, quem nunca apanhou nas urgências dos hospitais públicos um médico ou médica, a falar um português mais estranho, com pronúncia de Leste da Europa? Não tenho nada contra. Afinal, se estão ali a prestar um serviço, é porque faltam médicos em Portugal nos hospitais públicos. Mas onde está então o alegado excesso de médicos proclamado pelos alunos de medicina? E, é preciso não esquecer, estes médicos estrangeiros, na maioria, são formados em universidades com menor exigência em relação à média de acesso em Portugal.

 

No artigo do Diário de Notícias, que dá conta da queixa dos alunos de medicina, ficamos a saber que "apesar da perceção de falta de médicos, lê-se na proposta da ANEM (Associação Nacional de Estudantes de Medicina), Portugal tem, de acordo com a OCDE, 4,3 médicos por cada mil habitantes, o que o torna o quarto no grupo com mais médicos. Mas apenas "26 960 no SNS, dos quais 8515 são internos." Por isso, "existe falta de médicos no SNS e não em Portugal." Essa ideia existe, ainda, porque há "assimetrias na distribuição médica entre regiões rurais e urbanas, tal como entre especialidades médicas." 

 

E ficamos ainda mais confusos. Ou seja, há muitos médicos em Portugal, mas poucos no Serviço Nacional de Saúde e menos ainda nas zonas rurais. Confirma-se aquilo que todos vamos vendo nos hospitais públicos. A solução, para quem pode, é pagar um seguro de saúde e optar pelos serviços no setor privado. E, é preciso não esquecer, nem todos os médicos têm convenções com seguradoras. Afinal, agora, até os hipermercados dão a possibilidade de ter acesso a descontos com serviços médicos, como se de um seguro se tratasse.

Dizer que um médico só está no ponto, preparado para tomar decisões sobre a vida de uma pessoa ao fim de dez anos, talvez não seja demais. 

Mas os utentes não são meros pedaços de carne. Pago os meus impostos, tenho o direito de exigir, pelo menos para quem não pode, acesso a cuidados de saúde dignos. Se os alunos de medicina estão com receio de ingressar num mercado privado muito cheio, lutem para ter o SNS com médicos suficientes. Lutem para que um utente não esteja um ano à espera para fazer um exame ao coração. E não encolham os braços, com ar de naturalidade, quando questiono: é preciso esperar um ano para fazer o exame? O pior é quando depois aconselham realizar os exames no privado... O conselho é bem-vindo, mas só para quem pode pagar!

 

Só quem nunca esteve numa urgência hospitalar, no SNS, ignora as queixas dos enfermeiros, dos médicos, dos auxiliares que lá estão sobre a falta de gente. Queixas sobre os cortes com pessoal e material. E eu digo, o período em que estão a dar consultas no privado, não poderia estar a ser usado para cobrir as necessidades do Serviço Nacional de Saúde?

 

Têm de receber mais? De acordo, essa não será a minha discussão. São médicos, uma profissão digna para aqueles que juraram salvar vidas e o colocam em prática. Acredito que merecem salários à altura da sua formação, do serviço que prestam, tal como todos os profissionais de saúde ou outras áreas. Mas não façam a vida no setor privado para depois chegar ao público cansados, sem as condições mínimas para dar atenção aos utentes que dependem do seu diagnóstico para viver.

 

Ou melhor, façam, se quiserem, mas não digam que há médicos a mais. Afinal, como já se sabe, há falta de médicos no Serviço Nacional de Saúde (nunca é demais repetir). Talvez, digo eu que não sou médico nem legislador, deva abrir um curso específico para médicos que queiram prestar serviço em exclusivo nos Hospitais Públicos.

 

É preciso lembrar que um médico demora a formar. Não se trata apenas do curso na universidade. A formação é contínua e ainda tem a fase do internato, da prática, acompanhado por um médico experiente. Reduzir o número agora, significa empenhar o futuro de muitos. Se pensarmos que além dos cinco anos de curso, mais um ou dois de internato, especialidades e afins, se calhar dizer que um médico só está no ponto, preparado para tomar decisões sobre a vida de uma pessoa ao fim de dez anos, não seja demais.

 

Se quando se formam precisam de imigrar, porque não conseguem trabalho em Portugal, não é mais do que colocar a medicina, no mesmo patamar de outras profissões. Não havendo ofertas de trabalho, os portugueses, como outros povos do mundo, procuram fora. É desejável? Não, todos gostavam de se manter a viver no país onde nasceram. Mas, pelo menos nos próximos tempos, não se prevê uma situação de pleno emprego.

 

O nível de acesso ao curso de medicina é já bastante elevado e, com essa medida, existe logo à partida um filtro. A tal aluna que escreveu a Marcelo é prova dessa seleção. Será o mais correcto? Talvez não. Um aluno com uma grande média não será necessariamente um excelente médico. E o contrário também será verdade. Mas isso, é uma outra discussão.

 

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