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Coisas da Vida

As viagens oferecidas para ver a bola

As viagens oferecidas para ver a bola Foto@Lusa

Nos últimos dias, passada a onda de celebração da conquista do Euro 2016 aos franceses, e como a época de verão propícia o aparecimento de conversas deste tipo, surgiram ao estilo de notícia de última hora, informações sobre as pessoas que viajaram a convite de empresas para ver os jogos. Ao bom estilo português, "ofereceram-lhe uma viagem para ir ver a bola!"

 

 

Claro, aqui a grande novidade está relacionada com o facto de se tratar de um político no poder, de secretários de Estado. Mas, a maior questão, aquela que pouco se fala, é que isto sempre sucedeu e vai continuar a suceder. Os patrocinadores do futebol, principalmente os maiores, aqueles que desembolsam milhões anualmente para ver as suas marcas associadas à seleção, ou a um clube, têm alguns benefícios: lugares nos camarotes, bilhetes para os jogos, viagens nos aviões da equipa, quartos no hotel onde ficam alojadas as equipas e a seleção e que, normalmente, ficam vedados ao comum dos mortais.

 

Por isso, é com alguma "normalidade" que as empresas, a par da realização de alguns passatempos que premeiam meia dúzia de felizardos, utilizem estes benefícios para convidar clientes, ou pessoas com quem pretendem reforçar as relações de trabalho. Ou convidar pessoas que, de alguma forma, possam trazer benefícios futuros.

O problema é que com estes fait-divers, acabamos por manter escondido aquilo que realmente importa.

Faz parte das estratégias de gestão, de marketing e, apesar de em Portugal ser uma coisa muito negativa e raramente assumida, de lóbis.

 

Estes lugares são reservados para as empresas convidarem quem entenderem. Políticos, jornalistas (por regra, desde que não sejam da área desportiva), atores, pessoas influentes. Isto, claro, é feito com o intuito de manter boas relações com as pessoas com quem habitualmente se lida. Há quem recuse falar de lóbis. Mas todos sabem como estas coisas se processam. As boas relações, também ajudam a moldar mentalidades.

 

Mas, não será nesta viagem, nem pelo valor que representa, que o Estado ficará lesado. O problema não será se o secretário de Estado A ou B vai agora desembolsar o valor da viagem à empresa que a patrocinou anteriormente (nem imagino o granel que será o secretário de Estado pedir uma factura à Galp pela viagem). É preciso saber se haverá favores no futuro ou se já existiram no passado. Porque, mesmo que devolva o dinheiro da viagem, quem garante que esse dinheiro não veio, ou vai entrar por outras vias? Pagar a viagem e considerar que vai ficar tudo como dantes, é o mesmo que um qualquer ladrão devolver o dinheiro ao banco que assaltou e ir ara casa descansado.

 

O que mais choca neste processo não é o facto de se fazer uma novela em torno do caso, porque estas viagens já se fazem há muitos anos e delas já usufruiram políticos de praticamente todos os quadrantes. Choca-me mais a atitude da atual governação que, noutros tempos, teria exigido alto e bom som a demissão dos secretários de Estado em causa. Tal como estão a fazer agora o PSD e CDS.

O que está em causa em toda esta polémica não são as viagens para ir ver a bola. Mas sim os atos de governação que possam beneficiar grandes empresas em detrimento do Estado.

Choca-me, acima de tudo, a postura de Bloco de Esquerda e PCP que, nestas questões, parecem ter desaparecido do mapa político. Condenam, mas encolhem as garras. "O BE não tem capacidade para demitir um membro do Governo", referiu pedro Filipe Soares, do BE sobre o assunto. Parece que, afinal, a tal geringonça tem por ali umas peças soltas.

 

Choca-me que o Governo se apresse em anunciar um código de conduta (que por acaso até já existe e ao qual os membros do Governo estão vinculados) como se nunca ninguém se tivesse apercebido desta espécie de "promiscuidade".

 

Para que fique claro, o que está em causa em toda esta polémica não são as viagens para ir ver a bola. Mas sim os atos de governação que possam beneficiar grandes empresas em detrimento do Estado. E, como todos sabemos, os maiores atentados são aqueles que se produzem às escuras e não os que parecem estar à vista de todos, mas que apenas são enaltecidos para criar acontecimentos de verão.

 

Desde que acompanho, como jornalista, os grandes eventos desportivos como Europeus ou mundiais de futebol, ou até jogos da Liga dos Campeões e Liga Europa, que vejo pessoas com cargos relevantes a viajar em comitivas para ver estes encontros. Mas, mais do que os jogos, é importante realçar os jantares, os almoços, os passeios, as conversas que se tem durante o tempo que dura a viagem. Ou fora delas!

 

A foto que ilustra este texto, é um exemplo de como o futebol puxa a si a política, os políticos que, de alguma forma, sabem que podem conquistar o público com a sua presença.

 

Destas viagens, certamente que as relações saem reforçadas. Mas alguém pode dizer que isso não tem impacto em certas decisões administrativas?

 

Agora, e dito isto, havendo um Código de Conduta, e se ele foi quebrado, as consequências teriam de ser óbvias. E continuo com uma grande dúvida: será que é por estas viagens que, neste caso, a Galp vai ser beneficiada? Um processo como o que existe, e que opõe a empresa ao Estado, vale um bocadinho mais do que os 3 ou 4 mil euros da viagem a Paris.

 

Como sempre, o problema é que com estes fait-divers, acabamos por manter escondido aquilo que realmente importa.

Vejamos como o Governo de António Costa (que mantém o silêncio sobre o caso) tenta fazer esquecer o tema. Uma vez que Jorge Costa Oliveira, secretário de Estado da Internacionalização, foi um dos membros do Governo a viajar a convite da Galp, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, vai passar a tratar de todas as questões relacionadas entre o seu Ministério e a GALP.

 

Ao fazer isto, Santos Silva não resolve a questão. Antes assume que existem, ou podem existir dúvidas na relação da empresa com o Estado. Logo, aceita que a atitude dos membros do Governo é inaceitável e é ele próprio quem deixa uma imagem de dúvida sobre os atos dos secretários de Estado.

 

Um imbróglio dos antigos que vai servindo para animar o verão.

 

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